sábado, 3 de novembro de 2007

Pensando à bolina (9)

A montanha inatingível

Pedro Sinde


Carlos Aurélio: Estrela, o manto do céu. Hesed
Caminhei por vales e montes, mas não cheguei à montanha. Não quiseste que subisse até ti, que olhasse o panorama distante, longe dos homens, que se avista do teu cimo. Não quero saber por que enviaste aquele dilúvio; agradeço-te até por não ter chegado. O que é chegar, afinal, senão a ilusão de julgar que se chegou?, a tristeza de se ter chegado?

O peregrino que chega à sua Jerusalém, chora quando chega, chora porque chega, chora porque quer já partir novamente, chora, enfim, porque no íntimo de si sabe que não chegou, sabe que nunca poderá chegar; e de estação em estação, de Jerusalém em Jerusalém, continuará a caminhar. Ele parece amar o destino para que se encaminha, mas não é assim, ama mais ainda o caminho, porque o destino é o mesmo para tantos outros, mas o caminho é só dele.

Tu, montanha alta, serás a minha Ítaca. Serás a mais alta das montanhas, a inatingível. Em cada lugar por onde passe, será sempre o teu cerro que procurarei. Pobres dos que crêem que, por terem subido, chegaram a ti. Não sabem que ninguém pode subir a montanha, que a montanha não se sobe; na ilusão da subida nem reparamos que é ela quem bondosamente desce até nós.

O homem, peregrino, caminhante, aspira a qualquer coisa que nunca chega a encontrar plenamente. O que procura não é deste mundo. Uma ânsia, a que em português se chama saudade, vibra como uma chama no mais íntimo da sua alma; é essa chama o seu guia.

4 comentários:

CMondim disse...

Caro Sinde,
tenho um poema q fala no cume das montanhas e que conclui q se em chegando a um cume de uma delas, as montanhas se sucedem...

Felipe Stefani disse...

Lindo este texto...

Anónimo disse...

Caro Pedro Sinde,

Pensou que fez um texto?
Enganou-se. Escreveu um poema!

Um abraço

Eduardo Aroso

A Árvore de Jessé disse...

Sempre o Pedro a surpreender-nos com as suas descobertas e as suas reflexões mais íntimas!

Um abraço
Avelino de Sousa