terça-feira, 21 de agosto de 2007

Pensando à bolina (3)

Sinais da natureza: o trevo e a estrela
Pedro Sinde

O trevo é uma expressão natural do número três. Como as suas três folhas estão unidas no centro, ele manifesta a unidade na trindade. É curioso, no entanto, que o povo entenda que o trevo se realiza plenamente apenas no número quatro. Um trevo de quatro folhas é uma anomalia, é uma excepção; mas é nessa excepção que o povo cristaliza a ideia de boa sorte.
Esconde-se aqui a ideia de que fora da norma, do normal, é que há-de estar o excepcional; aí é que o sobrenatural se revela plenamente.
O trevo, de algum modo, realiza-se no número quatro, mas isto não significa que todos os trevos deviam ter quatro folhas, pois isso faria deles outra coisa que não um trevo. O que me parece que está aqui significado é que um trevo de quatro folhas é, para o mundo dos trevos, o que um santo é para o mundo dos homens. Nem todos os homens se tornam santos, mas todos têm o sinal da santidade para que tendem.
A ideia de que dá boa sorte encontrar casualmente um trevo de quatro folhas revela a crença de que esse trevo é dotado de um poder especial, poder esse que, ao aparecer a uma determinada pessoa, assinala ou revela esse mesmo poder nela.
É curioso o simbolismo da estrela cadente, pois uma estrela que cai pareceria poder exprimir um sinal nefasto. O povo, porém, atribui a essa queda a ideia de descida; uma estrela cadente é, pois, uma luz celeste que desce à terra. Quem a vê deve formular um desejo; essa descida é um sinal de que a pessoa que a viu participa da luz que desceu.
Num e noutro caso trata-se sempre de, sem procurar, encontrar. Todavia, não procurar não é sinónimo de estar desatento. Uma pessoa desatenta passaria pelo trevo sem o ver, ainda que ele estivesse,
isolado, à frente dos seus olhos. Trata-se de uma atenção livre, disponível para o mundo, mas sem avidez. Quem tem o hábito de circular por livrarias ou bibliotecas sabe que é com essa disposição da alma que se encontra, inesperadamente, o livro que se procurava, sem saber que se procurava. É, em suma, a mesma atitude que devemos ter a cada dia: estar livremente atentos, para ver o que vem; no horizonte de cada dia qualquer coisa pode acontecer: a morte, a iluminação ou até ambas.
Para encontrarmos o trevo de quatro folhas é preciso olhar a terra; para ver a estrela cadente é preciso contemplar o céu. O homem da cidade só vê, quando repara neles, o betão no chão e as luzes das ruas a encobrir o céu. Não deve ser por acaso que no Corão se diz que, no fim dos tempos, nem uma cidade ficará de pé.

1 comentário:

Eduardo Aroso disse...

Goethe disse que «quando um arco-íris dura mais de cinco minutos já ninguém olha para ele». Isto era assim em pleno Romantismo. Hoje, o poeta diria que, passados trinta segundos, já ninguém vê o esplendor da diversidade na Unidade da Luz.
Um autor, que não me acode à memória, afirmava que a iluminação artificial das urbes contribui fortemente para o enfraquecimento da força de vontade do homem do nosso tempo (dos nossos tempos). Outros autores têm rondado esta problemática. Isto à mistura com a poluição atmosférica (descontando já a sujeira emocional que jorra dos televisores em todas as encruzilhadas), isto tudo, dizia, pode enfraquecer ainda mais a vontade de olhar com lúcida serenidade. Belo texto, o seu.

Um abraço!
Eduardo Aroso