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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Pretextos (7)

O que sabem as mães sobre seus filhos?

Pedro Martins

A amizade atenta de João Aldeia fez-me chegar às mãos um livro de Caetano Veloso recentemente publicado em Portugal pelas Quasi Edições. Tem por título O Mundo Não é Chato e recolhe inúmeros dispersos do cantor baiano. A edição portuguesa preservou saborosamente a grafia do Português que se escreve no Brasil, oferecendo formal desmentido à tão propalada necessidade dessa rasoira nefasta que se chama Acordo Ortográfico.

Previamente, o João chamou-me a atenção para um certo escrito, que é o texto de uma conferência proferida no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1993. Nele, a dada altura, Caetano Veloso alude à sua passagem por Portugal, em 1969, rumo ao exílio em Londres, narrando o encontro em que, acompanhado por seu amigo Roberto Pinho, lhe foi dado conhecer em Sesimbra “um senhor português que cuidava do castelo medieval da colina e era tido como alquimista”. A este propósito, diz ainda lembrar-se “de umas ovelhas de chifres revirados, que se punham perto do velho, como se fossem animais de estimação. E do mar muito azul rodeando de longe as muralhas de pedra”.

O velho junto dos animais era, evidentemente, Rafael Monteiro, o legendário sesimbrense que, a despeito de, ao tempo, não haver ainda dobrado o cabo dos cinquentenários, se impunha já, na sua figura hierática, com as barbas austeras de um patriarca.

Caetano conta, então, haver cantado, ou talvez recitado, a Rafael, por sugestão de Roberto, o poema da célebre canção Tropicália, um dos hinos do movimento tropicalista, que o músico encabeçava. Rafael escutou o trecho, de imediata significação revolucionária, e de pronto o interpretou num outro e mais elevado sentido, conferindo-lhe, palavra por palavra, uma dimensão mística, profética e messiânica, com que assinava um fado radiante ao Brasil futuro.

Meio surpreso, e esboçando suaves protestos, logo Caetano pretendeu restituir ao sentido original a canção da sua lavra. Debalde o fez, pois o suposto velho do castelo medieval da colina, em sua sabedoria dúctil, lhe recordou com uma pergunta a fundamental liberdade que razoavelmente assiste a todo o intérprete da palavra alheia: “O que sabem as mães sobre seus filhos?”

No decurso revoluteante da sua prosa garrida, Caetano firma em Agostinho da Silva o traço de união com que liga os circunstantes daquele encontro. Curiosamente, não o faz passar por António Telmo, amigo comum a Rafael e a Roberto, por aqueles dias já regressado de Brasília, em cuja universidade leccionara a convite de Agostinho, e vivendo, então, em casa voltada a Sul, no sopé do morro onde o castelo de Sesimbra se alcandora. Certo é, na mesma altura, Caetano Veloso, na companhia circunspecta de um sorridente Gilberto Gil, ter também visitado António Telmo em Sesimbra. Prazenteira, fluida, cordata, a conversa entre o cantor brasileiro e o então novel filósofo de Arte Poética deixou entrever possíveis afinidades.

Na conferência proferida no museu carioca, agora recolhida nas páginas de O Mundo Não é Chato, Caetano, que não deixa de se questionar sobre uma possível missão brasileira à face do orbe, mostra-se avesso à via do misticismo. Não obstante, reconhece-lhe o sortilégio de uma sedução que, no seu dizer, lhe vem da excentricidade. E, para mais, mostra compreender como poucos a grandeza inteira de um poema maior como a Mensagem de Fernando Pessoa, que abertamente faz sobrelevar às poesias ortónimas, às odes de Álvaro de Campos e aos poemas de João Cabral de Melo Neto, o seu poeta favorito, e o mais extensamente lido. “Com Mensagem”, acrescenta o cantor, “eu me sentia em presença de algo mais profundo quanto a tratar com as palavras – por causa de cada sílaba, cada som, cada sugestão de idéia parecer estar ali como uma necessidade de existência mesma da língua portuguesa: como se aqueles poemas fossem fundadores da língua ou sua justificação final”.

Necessariamente diverso, o sebastianismo hesitante de Caetano Veloso denota natural suspicácia perante Ariano Suassuna, “um inimigo mortal do tropicalismo”. Mas talvez se encontre uma oitava acima da tibieza daquele professor português de literatura que o cantor, com discreta reserva, nos apresenta como uma “autoridade em história das relações entre modernismo brasileiro e modernismo português”, e a quem ouviu a confissão de um infundado temor inicial, entretanto desmentido, a respeito de Agostinho da Silva: o de que as suas ideias se identificassem com as de Salazar!

É certo que Caetano, tomado pelo receio de que o culto dos mitos medievais possa servir “de inspiração para extremados nacionalismos modernos”, não está livre de interpretar algumas “afirmações instigantes” de Suassuna à luz da frase famosa com que Salazar preferia ver Portugal pobre do que ver Portugal diferente. Mas a seu favor depõe a circunstância de intuir num poema da Mensagem, qual esse que Pessoa intitulou de “Os Colombos”, a grandeza que supera toda a inferioridade ao propor uma “transcendência da mágoa”.

Ficamos sem saber o que pensava do livro tradicional de Pessoa o tal especialista lusitano versado em modernismos de que o cantor nos fala. Mas sabemos, de ciência certa, o que dessa obra genial pensam hoje, contra todas as evidências, não poucos literatos portugueses. Caetano, o brasileiro que outrora deixou por responder a sábia pergunta de Rafael, veio agora mostrar-nos aquilo que os filhos podem saber sobre suas mães.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Pretextos (6)

Elogio da dúvida

Pedro Martins

Lê-se no Diário de Notícias de hoje que “o petróleo barato acabou”. Trata-se de uma opinião, não de uma notícia. As opiniões produzem, por natureza, um efeito calmante em quem as ouve ou em quem as lê. O positivismo sempre teve a virtude de recusar sofísticas: prefere o facto, o que está feito.

Mas a opinião do jornal é a opinião de um jornalista, imerso em notícias. Um dia, porventura não muito distante, as notícias poderão ser diferentes. Por exemplo: “o petróleo acabou”. Por enquanto, e segundo o nosso plumitivo, os áugures da ciência do mando entrevêem uma quebra irremediável na produção da substância, alcançado que foi o pico da extracção do crude. E o jornalista acrescenta: “a partir daí podem imaginar-se todos os perigos para a civilização mundial como a conhecemos hoje – toda baseada no petróleo – em guerra por um escasso bem essencial”.

Ao fazer cair o pano sobre o seu São Paulo, Pascoaes, confessadamente, mal pode esperar por esses dias do fim, que serão também os de um outro princípio: “Esta civilização americana depende de materiais esgotáveis ou em quantidade limitada. A fábrica, esse templo moderno, há-de ser destruída, como o templo de Artemisa, em Éfeso, e o de Vénus, em Pafos. Templo quer dizer túmulo, casa dos mortos, que os mortos foram os primeiros deuses. Foram eles que dirigiram, para além do mundo, a atenção dos vivos. Destruída a fábrica pagã, teremos a igreja de Cristo, a confraria dos irmãos, o convívio universal e amoroso”.

Diferentemente do jornalista, não teve o poeta de esperar pelas notícias. A lucidez dos vates pode sempre ser explicada, mas quase nunca é compreendida. Diferentemente do jornalista, Pascoaes não lamentava perder a civilização em que vivia, afinal em tudo idêntica à “civilização mundial como a conhecemos hoje”. Ainda numa das derradeiras páginas do São Paulo, o escritor descreve-a pelo seguinte modo: “Nesta orgia industrial moderna, paródia em ferro e vapor, da orgia pagã, o homem está morto ou isolado do seu espírito. Existe, mas não vive. Existe a duzentos quilómetros à hora, mas com a vida parada, dentro dele. Vida inerte numa existência delirante. Seduzido pelo ruído e movimento, as duas faces desta civilização americana ou neo-neroniana, integrou-se num sistema mecânico industrial, e é simplesmente uma engrenagem. O ideal da ciência é a morte absoluta; a morte da alma e a do corpo: ateísmo e milinite”.

Um dia, já no Inverno da vida do mestre, António Telmo e Rafael Monteiro foram visitar Almada Negreiros. Em dado momento da conversa, quando se falava da velha Sesimbra e da moderna praga do turismo, o pintor elogiou superlativamente a beleza natural das paisagens que rodeiam a vila piscatória: “Sesimbra é tão bela que nem uma bomba atómica a pode destruir”. Irreverente, Rafael Monteiro apressou-se a acrescentar: “Que venha então a bomba atómica, para se acabar de vez com o turismo!”. Tal como Pascoaes, poeta que lia e admirava, Rafael ansiava por um novo começo. Nada sabemos desse recomeço, o que não pode deixar de nos angustiar. Mas é também a dúvida que sustenta a esperança.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Pretextos (5)

Rafael Monteiro e a filosofia portuguesa (3)*

Pedro Martins

Rafael Monteiro foi, antes de mais, um historiador. Talvez por isso, a sua obra filosófica percorre sobretudo, e quase sempre, os caminhos da filosofia da história. O pensador procura encontrar um sentido que englobe o movimento dos homens e dos povos no tempo e no espaço. No fundo, a própria história é uma viagem, e, como tal, tem um ponto de partida e um ponto de chegada.

O ponto de partida dessa viagem parece ser a queda narrada na alegoria do Génesis, em consequência do pecado original. Rafael Monteiro considera que, nesse preciso momento, termina sobre a Terra a Idade do Ouro. O movimento que então se inicia implica um gradual afastamento do princípio; e deve, por isso, ser considerado numa perspectiva cíclica, que é revelada simbolicamente pela imagem do círculo.

Isto significa que Rafael Monteiro não acredita num desenvolvimento histórico linear e, consequentemente, recusa a ideia de um progresso continuado da Humanidade. Continuada, só a decadência, a degradação, a descida degrau a degrau, porque a queda ainda não terminou. Esta visão pessimista da história, que está bem patente na sua obra historiográfica, conjuga-se notavelmente com a ideia de V Império, a que Rafael dedicou, aliás, um artigo publicado na revista Tempo Presente.

Quem ainda se recordar daquilo que o Pedro Sinde disse há um ano nesta sala, no colóquio sobre Agostinho da Silva, saberá que, de acordo com a Tradição, à Idade do Ouro se sucedem a da Prata, a do Bronze e a do Ferro, e que a estas quatro idades correspondem os quatro impérios sonhados por Nabucodonosor. Há depois um quinto império, que é, no sonho do rei da Babilónia, a pedra que se desprende da montanha sem intervenção de mão humana, e que irá pôr termo à história, isto é, aos impérios anteriores.

O quinto império, instituído por intervenção divina, opera a redenção da Humanidade e corresponde ao ponto de chegada do movimento histórico. Por aqui se vê que a filosofia da história de Rafael Monteiro é um messianismo profético e providencialista. Rafael acredita que o erro e o mal hão-de ser eliminados pela intervenção divina. Mas, para que a graça plenamente se manifeste e o reino de Deus se cumpra enfim na república dos homens, é necessário que estes exercitem as três virtudes teologais: a Fé, a Esperança e a Caridade. A esta luz se compreende a Idade do Espírito Santo, sucedendo à Idade do Pai e à Idade do Filho, anunciando e preparando o V Império, a Parúsia ou a segunda vinda de Cristo. Rafael aborda este tema admiravelmente em O Culto do Espírito Santo, um dos dois artigos que publicou no jornal 57.

O seu pensamento volta a estar, assim, muito próximo das ideias de Sampaio Bruno e Teixeira de Pascoaes. Mas parece ser sobretudo na obra de Álvaro Ribeiro (e, em especial, nas páginas de A Razão Animada) que Rafael colhe os ensinamentos mais importantes.

Nada disto põe em causa a originalidade da sua obra filosófica. Essa originalidade reside principalmente nos caminhos que por ele são trilhados, ou seja, nos argumentos inovadores com que sustenta teses já anteriormente enunciadas por outros. Valerá para o pensamento fecundo de Rafael a citação de Goethe que ele emprega no escrito notável sobre a procissão das Chagas: “Não se anda só para chegar, mas para viver o caminho”.
É, por exemplo, o que sucede no primeiro artigo publicado no jornal 57, em Setembro de 1958, e intitulado Relações esquecidas do mito português, em que, conjugando subtilmente a leitura do Dom Quixote de Cervantes com o nosso Amadis de Gaula, consegue demonstrar a singularidade do destino histórico de Portugal no contexto medieval europeu. A sua ideia parece ser esta: a Idade Média termina muito mais cedo em Portugal do que no resto do velho continente. Com a vitória em Aljubarrota, viramos as costas à Europa, com quem nos não identificamos, e iniciamos a aventura marítima.

Há aqui um aspecto curioso, e muito significativo, para o qual gostaria de chamar a vossa atenção. É que nesse mesmo mês (Setembro de 1958), mas num outro artigo, publicado no Diário de Notícias, Rafael, partindo, com argúcia, das conclusões do insuspeito Lúcio de Azevedo, refuta brilhantemente a ideia de que os Descobrimentos portugueses, que são uma etapa necessária, e já cumprida, do nosso destino messiânico, possam ser cabalmente explicados por motivos de ordem material, económica e comercial.

O facto de Rafael ter publicado, quase em simultâneo, dois escritos da maior originalidade e que tão bem se articulam entre si, é susceptível de nos revelar a vastidão e a profundidade do seu pensamento e leva-me a supor que, noutras circunstâncias, ele poderia ter sido um dos grandes filósofos portugueses do século XX. É, aliás, o que pressinto de cada vez que leio o que ele escreveu sobre os painéis atribuídos a Nuno Gonçalves, onde a autenticidade das suas ideias se estende às conclusões que tem a feliz ousadia de nos apresentar. Mas, sobre isso, vai agora falar-nos o Luís Paixão.

Cotovia, 16 de Setembro de 2007
*
Comunicação apresentada ao colóquio Rafael Monteiro, Sesimbra e a Filosofia Portuguesa, realizado na Biblioteca Municpal de Sesimbra, em 22 de Setembro de 2007.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Pretextos (4)

Rafael Monteiro e a filosofia portuguesa (2)*

Pedro Martins
É sabido que Rafael Monteiro foi um destacado elemento da Mocidade Portuguesa local. Por isso, ao chegar à idade adulta, no início da década de 40, estava naturalmente identificado com o Estado Novo, que lhe propunha uma determinada ideia de Deus, da Pátria e da Família. Não deixará de colher dissabores junto de figuras mais ou menos importantes do regime, mas isso são contas de outro rosário.

Um dia, porém, passados os momentos dramáticos do ciclone de 15 de Fevereiro de 1941, e atenuados os seus efeitos devastadores, algo muda. É chegada a altura de lhe darmos a palavra: “Vindo da terra das bruxas (Arruda) um dia chegou o António Telmo; e entrou na roda, foi o «eixo» da roda. Com ele aprendemos a ler os “Lusíadas”, a conhecer Sampaio Bruno e Leonardo Coimbra, a amar Teixeira de Pascoaes”.

Com apenas 16 anos, mas agraciado já com a leitura de um livro que decidiu toda a sua vida espiritual – Literatura e Ocultismo, de Denis Saurat –, António Telmo veio rasgar horizontes e abrir panoramas a quem, até então, estivera, de alguma forma, encerrado na cova funda, confinado às ruas estreitas do velho burgo piscatório.

A descoberta de Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes, que António Telmo lhe proporcionou, terá deixado marcas profundas a Rafael Monteiro. Aqueles autores não recusam propriamente a fórmula Deus, Pátria e Família, proclamada por Salazar; mas estão nos antípodas do ditador, e dão, por isso, um sentido bem diferente às três ideias basilares, que tão próximas se encontram das três disciplinas filosóficas fundamentais.

Será difícil dizer até que ponto o veneno da tradição portuguesa, que em boa hora lhe foi inoculado pelo António Telmo, irá mudar a sua vida. Qualquer conjectura que eu arriscasse acabaria por ser ridícula, quando ainda há pessoas que, sobre isso, nos podem dar o seu testemunho fidedigno. Se a imagem me é permitida, limitar-me-ei a afirmar que a semente lançada à terra encontrou um terreno fértil.

Há depois um segundo marco.

Com 36 anos, exactamente no meio do caminho da sua vida, na idade em que Sampaio Bruno, Álvaro Ribeiro ou António Telmo conceberam ou publicaram livros inaugurais e decisivos, Rafael Monteiro escreveu um espantoso Depoimento – é esse o título que lhe dá –, que se manteve inédito até 2001, ano em que foi recolhido no volume Alguns Mareantes Desconhecidos de Sesimbra e outros textos. De alguma forma, tudo ali é questionado, interrogado, interpelado. A começar pela famigerada trilogia, que Salazar não quis discutir e que, com esse seu gesto de recusa, pode ter tornado irrecuperável.

Tenho para mim que este é o seu escrito mais importante. É também aquele que mais facilmente nos permite filiar Rafael na filosofia portuguesa. Pela sua leitura, podemos verificar até que ponto este homem religioso, que incessantemente procurava Deus, se distancia, logo na sua infância, da Igreja Católica, para depois a criticar em certos aspectos da doutrina, ou denunciar as contradições existentes entre essa doutrina e a prática quotidiana.

Assim, Rafael Monteiro confessa-nos que “na catequese, com um lapitos, riscava a palavra “Romana” na frase do catecismo: “Católica, Apostólica, Romana”, pois entendia, no seu “senso ingénuo que deveria lá estar “Portuguesa”, pois em Portugal” “nascera e não em Roma”. Neste ponto, Rafael não poderia estar mais próximo de Sampaio Bruno e Teixeira de Pascoaes, defensores da criação de uma Igreja nacional, portuguesa, lusitana.

Também a confissão e o celibato dos sacerdotes lhe causavam perplexidade ou confusão. Na sua óptica, a confissão, levando o sacerdote a absolver o fiel dos pecados cometidos, torna-o “um ente maior e melhor do que Deus”, e conduz necessariamente à sua deificação. O celibato dos sacerdotes percebe-se mal, torna-se mesmo incompreensível, quando a Igreja diz defender a Família e a tradição nos ensina que a Maternidade é superior à Virgindade, pois Nossa Senhora foi Esposa e Mãe.

É curioso observar que, de um certo ponto de vista, Rafael volta a estar muito próximo de Sampaio Bruno. Para este filósofo, a confissão auricular era o veículo de uma escravatura moral, que vinculava a mulher ao sacerdote; e só a eliminação do celibato imposto aos clérigos faria com que a mulher abandonasse espontaneamente o confessionário, pois esta, por uma questão de pudor e de orgulho, deixaria de confiar ao padre assuntos que ele, presumivelmente, iria comunicar à sua própria esposa.

De outro ponto de vista, a valorização que Rafael Monteiro faz do sacramento do Matrimónio, em detrimento do da Ordenação, identifica-o com Álvaro Ribeiro. É, aliás, nesta linha de pensamento que se insere outra crítica sua apontada à Igreja, motivada pela estranheza que lhe causa o facto de só serem “brancos os caixões das crianças e das pessoas solteiras, e negros os outros, como se o casamento, que a Igreja consagra, fosse pecado, acto impuro – contrário de bondade e de amor”.

Aliás, Rafael Monteiro diz não se entristecer perante a morte, pois, como cristão, vê nela uma forma de redenção. Neste aspecto, Rafael volta a seguir de muito perto a doutrina de Álvaro Ribeiro, e só não compreende que a Igreja “revista todos os actos fúnebres de panejamentos negros e chore o finado”. No seu entendimento infantil, “a Igreja deveria alegrar-se com a morte, se realmente crê, como propaga, ser a morte redenção”.

Perante tudo isto, bem se entende que Rafael Monteiro nos afirme não haver encontrado resposta para as suas interrogações no templo e nos sacerdotes, ao sentir vedado, ou interrompido, o caminho que, na sua infância, o unia a Deus.

Rafael vai, então, procurar essa resposta na filosofia, e de Platão e Aristóteles a Dante e a Hegel, lê quase tudo quanto de verdadeiramente importante há para ler. Agora, busca Deus livremente, e admite mesmo chegar a entrevê-lo aqui e ali, mas sentindo-o sempre longe, inacessível e estranho ao seu sentir de português.

Só a filosofia portuguesa lhe dará a resposta que procurava, só ela lhe mostrará o caminho de regresso a Deus. A leitura contínua e meditada da obra de Álvaro Ribeiro vem a revelar-se fundamental. E Rafael confessa, por fim, ter chorado ao ler o prefácio de A Razão Animada, livro a que simplesmente chama o Evangelho, a Boa-Nova da Pátria.

A leitura da obra-prima de Álvaro parece ter tido o fulgor das revelações. Foi decisiva e definitiva. À parte os escritos sobre os painéis ditos de Nuno Gonçalves, que são mais tardios, a sua obra filosófica virá a lume quase imediatamente, nos três anos seguintes, entre 1958 e 1960, em boa parte nas páginas do jornal 57. Vamos agora falar um pouco sobre ela.

(continua)
* Comunicação apresentada ao colóquio Rafael Monteiro, Sesimbra e a Filosofia Portuguesa, realizado na Biblioteca Municipal de Sesimbra, em 22 de Setembro de 2007.

domingo, 23 de setembro de 2007

Pretextos (3)

Rafael Monteiro e a filosofia portuguesa*

Pedro Martins

De todos os oradores deste colóquio, só eu não cheguei a conviver com Rafael Monteiro. No entanto, não deixei de o conhecer pessoalmente, numa das poucas vezes em que o encontrei na redacção do jornal local em que ele colaborou nos últimos anos da sua vida.

Curiosamente, e tanto quanto julgo saber, serei também o único dos seis oradores desta tarde que travou uma polémica com Rafael na imprensa regional, precisamente nas páginas do tal jornal, um mensário em cujas instalações exíguas nos viríamos depois a cruzar de modo episódico.

Naquela altura, eu tinha apenas dezassete anos. Tinha também algumas ideias feitas. Porventura, demasiadas. Um dia, ao ler o tal jornal, não gostei que R. M. – era assim que ele assinava – elogiasse a RTP por esta haver suspendido um programa da autoria de Herman José, chamado Humor de Perdição, em que o humorista maltratava as principais figuras da História de Portugal. Escrevi então uma carta indignada ao director do mensário, que a publicou. Rafael respondeu-me ferozmente e eu repliquei-lhe com contundência. A coisa ficou por ali; e os ânimos ficaram exaltados.

Quando, mais tarde, travámos conhecimento pessoal, na redacção do dito jornal, não lhe notei qualquer animosidade. Verifiquei, então, com certo regozijo, que não me guardara rancor, o que, aliás, era recíproco. Creio que o armistício ficou selado tacitamente quando ele me cravou um ou dois cigarros.

Relembro, aqui e agora, o que então sucedeu, com o exclusivo propósito de demonstrar que este homem, que era um lutador e um combatente, tinha a nobreza dos melhores guerreiros.

Alguns dos seus combates eram verdadeiros conflitos íntimos. A este propósito, será oportuno contar um outro episódio passado com Rafael. Dois ou três anos depois daquela polémica, eu editava, com dois amigos (o António Ladeira e o Nuno Sanchez Lacasta), a página cultural daquele jornal. Essa rubrica, graças a uma ideia brilhante do Ladeira, tinha um título excêntrico, contrastante e pleno de subentendidos: chamava-se “Incêndio na Fábrica de Extintores”. Ao cabo do segundo aniversário da página, resolvemos comemorar a sua criação, e decidimos entrevistar Rafael, mas ele declinou o convite. Mudámos a agulha e o António Ladeira foi a Almada entrevistar o escritor Romeu Correia, que era casado com uma sesimbrense, Almerinda Correia, e havia escrito maravilhosamente sobre Sesimbra, num romance intitulado Trapo Azul. Quando o Rafael viu a entrevista publicada no jornal, terá exclamado qualquer coisa como isto: “Pois! Não me entrevistaram a mim, para irem entrevistar este comunista!”.

Já algumas pessoas me disseram que esta atitude inconstante e, por isso mesmo, desconcertante era própria de Rafael. Ao que julgo saber, ele até admirava o escritor almadense, com quem partilhou certos pontos de vista na defesa dos pescadores contra os malefícios do arrasto, mas o anticomunismo persistente que o caracterizava, aliado a uma pontinha de ciúme, desembocou nesta confissão de desalento e desconsolo. Eu julgo que Rafael queria e não queria ser entrevistado; e que, por isso, terá travado, no seu íntimo, uma batalha tremenda consigo mesmo.

Fora isto, o seu anticomunismo, público e notório, aliado a uma admiração incondicional, que sempre manteve, pela figura de Salazar, valeu-lhe o rótulo apressado e injusto de fascista. Ora, eu estou em crer que este é um bom ponto de partida para se avaliar em que medida Rafael Monteiro foi um homem da filosofia portuguesa.

(continua)

* Comunicação apresentada ao colóquio Rafael Monteiro, Sesimbra e a Filosofia Portuguesa, realizado na Biblioteca Municipal de Sesimbra, em 22 de Setembro de 2007.