Pedro Martins
A amizade atenta de João Aldeia fez-me chegar às mãos um livro de Caetano Veloso recentemente publicado em Portugal pelas Quasi Edições. Tem por título O Mundo Não é Chato e recolhe inúmeros dispersos do cantor baiano. A edição portuguesa preservou saborosamente a grafia do Português que se escreve no Brasil, oferecendo formal desmentido à tão propalada necessidade dessa rasoira nefasta que se chama Acordo Ortográfico.
Previamente, o João chamou-me a atenção para um certo escrito, que é o texto de uma conferência proferida no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1993. Nele, a dada altura, Caetano Veloso alude à sua passagem por Portugal, em 1969, rumo ao exílio em Londres, narrando o encontro em que, acompanhado por seu amigo Roberto Pinho, lhe foi dado conhecer em Sesimbra “um senhor português que cuidava do castelo medieval da colina e era tido como alquimista”. A este propósito, diz ainda lembrar-se “de umas ovelhas de chifres revirados, que se punham perto do velho, como se fossem animais de estimação. E do mar muito azul rodeando de longe as muralhas de pedra”.
O velho junto dos animais era, evidentemente, Rafael Monteiro, o legendário sesimbrense que, a despeito de, ao tempo, não haver ainda dobrado o cabo dos cinquentenários, se impunha já, na sua figura hierática, com as barbas austeras de um patriarca.
Caetano conta, então, haver cantado, ou talvez recitado, a Rafael, por sugestão de Roberto, o poema da célebre canção Tropicália, um dos hinos do movimento tropicalista, que o músico encabeçava. Rafael escutou o trecho, de imediata significação revolucionária, e de pronto o interpretou num outro e mais elevado sentido, conferindo-lhe, palavra por palavra, uma dimensão mística, profética e messiânica, com que assinava um fado radiante ao Brasil futuro.
Meio surpreso, e esboçando suaves protestos, logo Caetano pretendeu restituir ao sentido original a canção da sua lavra. Debalde o fez, pois o suposto velho do castelo medieval da colina, em sua sabedoria dúctil, lhe recordou com uma pergunta a fundamental liberdade que razoavelmente assiste a todo o intérprete da palavra alheia: “O que sabem as mães sobre seus filhos?”
No decurso revoluteante da sua prosa garrida, Caetano firma em Agostinho da Silva o traço de união com que liga os circunstantes daquele encontro. Curiosamente, não o faz passar por António Telmo, amigo comum a Rafael e a Roberto, por aqueles dias já regressado de Brasília, em cuja universidade leccionara a convite de Agostinho, e vivendo, então, em casa voltada a Sul, no sopé do morro onde o castelo de Sesimbra se alcandora. Certo é, na mesma altura, Caetano Veloso, na companhia circunspecta de um sorridente Gilberto Gil, ter também visitado António Telmo em Sesimbra. Prazenteira, fluida, cordata, a conversa entre o cantor brasileiro e o então novel filósofo de Arte Poética deixou entrever possíveis afinidades.
Na conferência proferida no museu carioca, agora recolhida nas páginas de O Mundo Não é Chato, Caetano, que não deixa de se questionar sobre uma possível missão brasileira à face do orbe, mostra-se avesso à via do misticismo. Não obstante, reconhece-lhe o sortilégio de uma sedução que, no seu dizer, lhe vem da excentricidade. E, para mais, mostra compreender como poucos a grandeza inteira de um poema maior como a Mensagem de Fernando Pessoa, que abertamente faz sobrelevar às poesias ortónimas, às odes de Álvaro de Campos e aos poemas de João Cabral de Melo Neto, o seu poeta favorito, e o mais extensamente lido. “Com Mensagem”, acrescenta o cantor, “eu me sentia em presença de algo mais profundo quanto a tratar com as palavras – por causa de cada sílaba, cada som, cada sugestão de idéia parecer estar ali como uma necessidade de existência mesma da língua portuguesa: como se aqueles poemas fossem fundadores da língua ou sua justificação final”.
Necessariamente diverso, o sebastianismo hesitante de Caetano Veloso denota natural suspicácia perante Ariano Suassuna, “um inimigo mortal do tropicalismo”. Mas talvez se encontre uma oitava acima da tibieza daquele professor português de literatura que o cantor, com discreta reserva, nos apresenta como uma “autoridade em história das relações entre modernismo brasileiro e modernismo português”, e a quem ouviu a confissão de um infundado temor inicial, entretanto desmentido, a respeito de Agostinho da Silva: o de que as suas ideias se identificassem com as de Salazar!
É certo que Caetano, tomado pelo receio de que o culto dos mitos medievais possa servir “de inspiração para extremados nacionalismos modernos”, não está livre de interpretar algumas “afirmações instigantes” de Suassuna à luz da frase famosa com que Salazar preferia ver Portugal pobre do que ver Portugal diferente. Mas a seu favor depõe a circunstância de intuir num poema da Mensagem, qual esse que Pessoa intitulou de “Os Colombos”, a grandeza que supera toda a inferioridade ao propor uma “transcendência da mágoa”.
Ficamos sem saber o que pensava do livro tradicional de Pessoa o tal especialista lusitano versado em modernismos de que o cantor nos fala. Mas sabemos, de ciência certa, o que dessa obra genial pensam hoje, contra todas as evidências, não poucos literatos portugueses. Caetano, o brasileiro que outrora deixou por responder a sábia pergunta de Rafael, veio agora mostrar-nos aquilo que os filhos podem saber sobre suas mães.