domingo, 30 de setembro de 2007

Pensando à bolina (6)

Brevíssimo diálogo desconcertante

Pedro Sinde

Encontro um amigo na rua e saúdo-o naquele estado habitual em que se saúdam as pessoas umas às outras, quer dizer, em que é o hábito social a falar por nós, em que perguntamos sem que esperemos uma resposta verdadeira.

- Como estás? Correu-te bem o dia?

Olhou-me com ar pensativo. Estranhei a demora na resposta; não é normal, perante uma banal pergunta de cortesia, o nosso interlocutor ficar mesmo a pensar nela. Ele levou a sério a pergunta. Ao fim de algum tempo, que mais parecia não ter fim, respondeu, fitando-me profundamente:

- Sinde, meu caro, passou mais um dia, foi milagre atrás de milagre e, no entanto, eu vivi-o como se fosse natural estar vivo...

- Como assim? - perguntei, ainda absorto no meio da estupefacção.

- Repara, o sol ergueu-se no céu e veio iluminar a terra; eu despertei como que da morte, pois deitei-me de noite e só me levantei com o sol a erguer-se e não me lembro de nada entre o deitar e o levantar; andei, senti, pensei, pude olhar o mundo e tudo isto sem sentir que estou vivo. Não é espantosa a estupidez a que se pode chegar?

- Pois - balbuciei, turbado e desconcertado. - Até amanhã, Dinis! - preferi despedir-me, antes que eu mesmo começasse a sentir que estou vivo.

domingo, 23 de setembro de 2007

Pretextos (3)

Rafael Monteiro e a filosofia portuguesa*

Pedro Martins

De todos os oradores deste colóquio, só eu não cheguei a conviver com Rafael Monteiro. No entanto, não deixei de o conhecer pessoalmente, numa das poucas vezes em que o encontrei na redacção do jornal local em que ele colaborou nos últimos anos da sua vida.

Curiosamente, e tanto quanto julgo saber, serei também o único dos seis oradores desta tarde que travou uma polémica com Rafael na imprensa regional, precisamente nas páginas do tal jornal, um mensário em cujas instalações exíguas nos viríamos depois a cruzar de modo episódico.

Naquela altura, eu tinha apenas dezassete anos. Tinha também algumas ideias feitas. Porventura, demasiadas. Um dia, ao ler o tal jornal, não gostei que R. M. – era assim que ele assinava – elogiasse a RTP por esta haver suspendido um programa da autoria de Herman José, chamado Humor de Perdição, em que o humorista maltratava as principais figuras da História de Portugal. Escrevi então uma carta indignada ao director do mensário, que a publicou. Rafael respondeu-me ferozmente e eu repliquei-lhe com contundência. A coisa ficou por ali; e os ânimos ficaram exaltados.

Quando, mais tarde, travámos conhecimento pessoal, na redacção do dito jornal, não lhe notei qualquer animosidade. Verifiquei, então, com certo regozijo, que não me guardara rancor, o que, aliás, era recíproco. Creio que o armistício ficou selado tacitamente quando ele me cravou um ou dois cigarros.

Relembro, aqui e agora, o que então sucedeu, com o exclusivo propósito de demonstrar que este homem, que era um lutador e um combatente, tinha a nobreza dos melhores guerreiros.

Alguns dos seus combates eram verdadeiros conflitos íntimos. A este propósito, será oportuno contar um outro episódio passado com Rafael. Dois ou três anos depois daquela polémica, eu editava, com dois amigos (o António Ladeira e o Nuno Sanchez Lacasta), a página cultural daquele jornal. Essa rubrica, graças a uma ideia brilhante do Ladeira, tinha um título excêntrico, contrastante e pleno de subentendidos: chamava-se “Incêndio na Fábrica de Extintores”. Ao cabo do segundo aniversário da página, resolvemos comemorar a sua criação, e decidimos entrevistar Rafael, mas ele declinou o convite. Mudámos a agulha e o António Ladeira foi a Almada entrevistar o escritor Romeu Correia, que era casado com uma sesimbrense, Almerinda Correia, e havia escrito maravilhosamente sobre Sesimbra, num romance intitulado Trapo Azul. Quando o Rafael viu a entrevista publicada no jornal, terá exclamado qualquer coisa como isto: “Pois! Não me entrevistaram a mim, para irem entrevistar este comunista!”.

Já algumas pessoas me disseram que esta atitude inconstante e, por isso mesmo, desconcertante era própria de Rafael. Ao que julgo saber, ele até admirava o escritor almadense, com quem partilhou certos pontos de vista na defesa dos pescadores contra os malefícios do arrasto, mas o anticomunismo persistente que o caracterizava, aliado a uma pontinha de ciúme, desembocou nesta confissão de desalento e desconsolo. Eu julgo que Rafael queria e não queria ser entrevistado; e que, por isso, terá travado, no seu íntimo, uma batalha tremenda consigo mesmo.

Fora isto, o seu anticomunismo, público e notório, aliado a uma admiração incondicional, que sempre manteve, pela figura de Salazar, valeu-lhe o rótulo apressado e injusto de fascista. Ora, eu estou em crer que este é um bom ponto de partida para se avaliar em que medida Rafael Monteiro foi um homem da filosofia portuguesa.

(continua)

* Comunicação apresentada ao colóquio Rafael Monteiro, Sesimbra e a Filosofia Portuguesa, realizado na Biblioteca Municipal de Sesimbra, em 22 de Setembro de 2007.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Pensando à bolina (5)

Experiências com animais

Pedro Sinde

Imaginemos os dois, o leitor e eu, que em vez de serem os homens a fazer experiências com animais, eram os animais a fazer experiências com os homens. Imaginemos que uma espécie de animais resolvera caçar homens, reproduzi-los (reproduzir-nos!) para realizar experiências "científicas". Tudo isto, é claro, porque a sua espécie estava ameaçada por uma estranha doença e necessitavam de encontrar a cura. Não podemos dizer que seria por razões humanitárias, mas por razões animalitárias.
O que faria o homem quando reparasse que os seus estavam a desaparecer enigmaticamente e descobrisse que os animais os tinham enjaulado, que lhes davam injecções com líquidos que lhes causavam uma dor atroz, que lhes implantavam orelhas nas costas e braços na cabeça?

O animal é visto como uma "coisa" ao serviço do homem. E o que é curioso é que aqueles que fazem estas experiências atrozes com os animais são exactamente os mesmos que defendem que os homens são apenas animais entre animais, par inter pares. Se o homem é apenas um igual entre iguais com o animal, então que direito o assiste nesse infligir de sofrimento inimaginável, invisível, mas bem existente? Os horrores de um laboratório científico... uma câmara de tortura!

Não há dúvida de que falta à nossa ciência uma orientação metafísica. Acalento a esperança secreta de que, no fundo, no fundo, eles não sabem o que fazem; possa assim alguém perdoar-lhes.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Pensando à bolina (4)

O Deus da nossa infância

Pedro Sinde

A ideia infantil que formámos de Deus é, simultaneamente, um obstáculo e uma ajuda. É uma ajuda porque o pensamos como a fonte da bondade, da beleza e da verdade; e isto é causa de esperança. Acalenta-nos a ideia de que, havendo injustiça no mundo, há, no entanto, uma justiça transcendente, uma justiça que transferimos para o outro mundo. Tudo isto é bom, descansa-nos.
Porém, o pensador, o filósofo, deve olhar para a ideia de Deus com coragem, deve superar a imagem infantil que se entranhou na sua alma em criança. Para o filósofo, essa ideia é um obstáculo que não o deixa pensar livremente, que não o deixa pensar seriamente.
A parábola do filho pródigo mostra-nos nitidamente estas duas possibilidades: o filho que fica em casa é aquele que conserva a ideia infantil de Deus; o filho que sai de casa, percorre o mundo e é recebido, para escândalo do outro irmão, com uma festa, assim que retorna a casa, é aquele que não se contentou com a imagem recebida em criança. Estes são o caminho da religião e o caminho da filosofia.
O filósofo andará sozinho, será rejeitado, caluniado, será visto como um louco, mas será livre e procurará verdadeiramente. Errará, certamente, várias vezes, mas o ímpeto da demanda é mais forte do que ele; quem sabe se não é o próprio Deus a procurar-se a si mesmo no filósofo?

A maravilha do mundo, tal como nos aparece vertida na natureza, é certamente um pensamento divino - de que estranho acaso poderia ter saído tanta magnificência? -, mas nessa maravilha esconde-se o horror da morte e do sofrimento dos inocentes: é o veado perseguido pelo leão ou a criança que sofre horrores que nós nem imaginamos.
Ao filósofo cabe o duro papel de pensar o mundo como um todo, sem corpetes, sem palas, num esforço heróico e tremendo. Quem alguma vez passou pela experiência de pensar verdadeiramente o mal não poderá mais fingir que o mundo é apenas fruto da harmonia. Vemos nele essa harmonia, manifestada de um modo insuperável na natureza, mas um vento gelado, caótico, tende a infiltrar-se nela a todo o tempo.
É fácil ver a causa do bem em Deus, difícil é pensar a causa do mal.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Escaparate (2)


Barros Basto - A Miragem Marrana,
de Alexandre Teixeira Mendes

Pedro Sinde

Este livro revela-nos Barros Basto e a questão marrana. Escrito num estilo que mostra e esconde, parece jogar com o leitor, levando-o gradualmente a procurar perceber por si próprio o pensamento do autor. Não é um livro objectivo, na medida em que é um livro com alma, um livro apaixonado e apaixonante. Só os sem alma, podem transformar o sujeito do seu estudo em objecto. Alexandre Teixeira Mendes, pelo contrário, transforma o objecto do seu estudo em sujeito; é assim que Barros Basto, o apóstolo dos marranos, nos aparece vivo, contraditório, verdadeiro, o herói que lutou pelo resgate dos marranos, isto é, dos judeus que durante quatro séculos se esconderam, passando e recriando, de geração para geração, uma tradição que não podiam exprimir à luz do dia; a noite era o seu dia!

Vemos Barros Basto, no horizonte, de pé e em luta contra dois gigantes – a igreja católica e a "igreja" judaica –, um David e dois Golias; vemo-lo a dar o toque para reunir os que se encontravam dispersos. Alexandre Teixeira Mendes não está fora a olhar Barros Basto; acompanha-o na juventude, na conversão, na guerra, na organização do misterioso Instituto Oryamita, na Obra de Resgate. E nós, seus leitores, acompanhamo-lo por uma viagem inesquecível a um dos pontos mais importantes da alma do ser português e que só Sampaio Bruno e António Telmo estudaram, com a mesma audácia e liberdade que agora encontramos no autor deste livro.

Lançamento

Barros Basto A Miragem Marrana,

de Alexandre Teixeira Mendes


No âmbito das comemorações da Jornada Europeia da Cultura Judaica, que, entre nós, se realizam este ano no Porto, em 2 de Setembro, é lançado o livro Barros Basto – A Miragem Marrana, da autoria de Alexandre Teixeira Mendes. O lançamento desta obra, prefaciada por António Telmo, terá lugar será na Sinagoga Mekor Haim, na Rua Guerra Junqueiro, 304, e a sua apresentação será feita por Pedro Sinde.

Ao longo do dia, estão previstas diversas actividades, das quais se destacam uma visita guiada ao Porto Judaico, de manhã, seguida de almoço histórico em Miragaia. À tarde, a partir das 17 horas, já na Sinagoga do Porto, e precedendo o lançamento, estará patente uma exposição sobre a vida e a obra do Capitão Arthur Barros Basto e será exibido um filme sobre as actividades judaicas no Norte de Portugal.

O programa da Jornada Europeia pode ser consultado no blogue da Ladina.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Pensando à bolina (3)

Sinais da natureza: o trevo e a estrela
Pedro Sinde

O trevo é uma expressão natural do número três. Como as suas três folhas estão unidas no centro, ele manifesta a unidade na trindade. É curioso, no entanto, que o povo entenda que o trevo se realiza plenamente apenas no número quatro. Um trevo de quatro folhas é uma anomalia, é uma excepção; mas é nessa excepção que o povo cristaliza a ideia de boa sorte.
Esconde-se aqui a ideia de que fora da norma, do normal, é que há-de estar o excepcional; aí é que o sobrenatural se revela plenamente.
O trevo, de algum modo, realiza-se no número quatro, mas isto não significa que todos os trevos deviam ter quatro folhas, pois isso faria deles outra coisa que não um trevo. O que me parece que está aqui significado é que um trevo de quatro folhas é, para o mundo dos trevos, o que um santo é para o mundo dos homens. Nem todos os homens se tornam santos, mas todos têm o sinal da santidade para que tendem.
A ideia de que dá boa sorte encontrar casualmente um trevo de quatro folhas revela a crença de que esse trevo é dotado de um poder especial, poder esse que, ao aparecer a uma determinada pessoa, assinala ou revela esse mesmo poder nela.
É curioso o simbolismo da estrela cadente, pois uma estrela que cai pareceria poder exprimir um sinal nefasto. O povo, porém, atribui a essa queda a ideia de descida; uma estrela cadente é, pois, uma luz celeste que desce à terra. Quem a vê deve formular um desejo; essa descida é um sinal de que a pessoa que a viu participa da luz que desceu.
Num e noutro caso trata-se sempre de, sem procurar, encontrar. Todavia, não procurar não é sinónimo de estar desatento. Uma pessoa desatenta passaria pelo trevo sem o ver, ainda que ele estivesse,
isolado, à frente dos seus olhos. Trata-se de uma atenção livre, disponível para o mundo, mas sem avidez. Quem tem o hábito de circular por livrarias ou bibliotecas sabe que é com essa disposição da alma que se encontra, inesperadamente, o livro que se procurava, sem saber que se procurava. É, em suma, a mesma atitude que devemos ter a cada dia: estar livremente atentos, para ver o que vem; no horizonte de cada dia qualquer coisa pode acontecer: a morte, a iluminação ou até ambas.
Para encontrarmos o trevo de quatro folhas é preciso olhar a terra; para ver a estrela cadente é preciso contemplar o céu. O homem da cidade só vê, quando repara neles, o betão no chão e as luzes das ruas a encobrir o céu. Não deve ser por acaso que no Corão se diz que, no fim dos tempos, nem uma cidade ficará de pé.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Um novo blogue

António Quadros
É o nome de um blogue sobre o pensador de Portugal, Razão e Mistério, consagrado à evocação da sua vida e à divulgação e ao estudo da sua obra. António M. Ferro é o autor. Pode ser lido aqui.

(fotografia: www.antonioquadros.blogspot.com)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Bellum sine bello

Carta a Pedro Sinde

António Cândido Franco

Pedro Sinde, querido Amigo:

Estou a ler a tua carta com o cuidado que a tua pessoa me merece. A resposta virá mais tarde, em Setembro, quando regressar de férias.
Assim como assim, quero desde já agradecer-te a disponibilidade que puseste em me escrever. É um gosto e uma atenção que espero estimar e merecer.
Será que leste a pequena homenagem a Mário Cesariny que publiquei na revista A Ideia (nº 63), a propósito do seu falecimento? É um testemunho pessoal, nada mais, mas onde se fala de Pascoaes. Serve, para já, de entrada às palavras da minha resposta futura.
Isto se o Pedro Martins tiver a paciência e a generosidade de me reproduzir e aturar o texto no blog.
Abraço muito amigo do teu

António Cândido
Évora, 24 de Julho de 2007
_______

Homenagem a Mário Cesariny
António Cândido Franco

A primeira vez que falei com Mário Cesariny foi na Mãe-de-Água, às Amoreiras, em Lisboa, no ano de 1990, quando a Assírio & Alvim lançou A Phala especial, dedicada aos cem anos da poesia portuguesa (1888-1988). Recordo um dia de chuva, enevoado e ventoso; quando cheguei, o espaço estava repleto de uma pequena e ruidosa multidão. O Hermínio deu-me um exemplar do volume, onde eu participava com um texto sobre Teixeira de Pascoaes. Folheei-o e daí a nada, à minha frente, falando com um desconhecido, estava o Mário Cesariny, magro e seco.
Avistara-o uma única vez, uns anos antes, em 1984 ou em 1985, em Entre-Campos, de cachecol e boné enfiado na cabeça, na festa dos dez anos da revista A Ideia. Eu estava com o Ruy Cinatti e os dois reconheceram-se quando se cruzaram à saída, tirando os bonés e fazendo um ao outro um sorriso infantil. Foi momento comovente que não mais esquecerei. Eu acompanhara o Ruy e o Mário fora decerto o Miguel Serras Pereira que o levara ou que lhe dera a notícia da reunião pois recordo que recitou no espectáculo dois ou três dos seus poemas.
Agora, anos depois, surgia ali, mesmo ao meu lado, em cabelo branco, com os traços rijos de um plebeu aristocrata. Havia um cheiro intenso a ceruma verde e como ele estivesse a fumar pensei que era ele que estava de charro na mão.
– Ora o Cesariny não faz por menos a festa – entretive comigo. – Vir para o meio do maralhal fumar erva mal seca. Só ele. É um pivete que chega ao Jardim da Estrela.
Anos mais tarde, confessou-me que nunca tocara num cigarro de liamba ou em qualquer outra droga e que durante a sua longa vida não bebera mais do que três ou quatro cervejas. O único excesso fora uma aspirina com uma cerveja, nos tempos do Gelo, nos anos cinquenta, e que quase rebentara com ele.
– Agora imagine o que teria sido a minha vida, com a paixão que me caracteriza, se eu tivesse experimentado qualquer droga. Nunca mais a largava. Era o inferno – rematou.
No fim do lançamento, quando a multidão começava a escoar, reparei que ele se deixara ficar para trás, folheando um livro que lhe haviam dado. Atrevi-me a abordá-lo. Apresentei-me a medo. Ele foi de uma gentileza inexcedível, mostrando-se atencioso e muito atento às minhas palavras. Falámos sobre Teixeira de Pascoaes. Eu conhecia a antologia que ele fizera em 1972 da obra do poeta do Marão, as palavras firmes do seu prefácio, considerando Pascoaes superior a Pessoa. Reafirmou-me os juízos, apimentando-os com saborosas apreciações. Acabara de publicar o Virgem Negra. Estava cáustico.
– O Fernandinho foi um talento literário de primeira grandeza. Tinha talento para dar e vender, mas ficou limitado pela tralha do tempo – disse-me ele. – Pascoaes, pelo contrário, não tem tempo; a Lua dele já lá estava na primeira alvorada do mundo e lá há-de ficar no momento em que tudo acabar. É maravilhoso.
Pouco tempo depois, voltei a encontrá-lo na cave da Assírio & Alvim, onde ele ensaiava ao piano poesias suas. Recebeu-me com a mesma amabilidade e graça. Aí falámos de António Maria Lisboa e Leonardo Coimbra, via Sarmento Beires. Contestou a possibilidade do pensamento libertário de António Maria Lisboa poder ser aproximado do criacionismo vitalista de Leonardo. Era hipótese que eu levantara num livreco publicado uns meses antes, em 1989, O Mar e o Marão, que lhe fiquei de enviar para casa.
Enviei-lhe o livro e recebi telefonema dele agradecendo. Calava os desacordos em nome da liberdade e do coração, disse-me ele. Mais tarde, em 1995, publiquei em edição privada de cem exemplares a Carta a um Amigo sobre Teixeira de Pascoaes e o Cristo de Travassos, dedicada ao Luís Amaro, de que lhe enviei um exemplar e que mereceu desta vez carta e novo telefonema dele. Estava entusiasmado e queria falar comigo cara a cara. O ateísmo contraditório de Pascoaes, que eu explorava nesse texto, interessava-lhe muito; tinha segredos para me revelar. Combinámos um encontro na casa dele para tirarmos tudo a limpo.
Pus então pela primeira vez o pé na Rua Basílio Teles, ao pé do Instituto Português de Oncologia. Descobri o prédio dele, baixo e familiar, numa esquina. Tudo aquilo me pareceu conhecido e universal. Subi. O Mário morava no último andar, ao pé da clarabóia de vidro. Era o fim do dia e uma claridade luminosa, que parecia vir do nascer do mundo, caía do alto sobre a escada. Bati. O Mário demorou a abrir. Ajoelhou-se depois, quando me viu. Eu ajoelhei-me também, encantado com aquele homem de cabelo branco que se comportava como uma criança. Pediu-me para lhe pôr a mão na cabeça. E foi assim, desta forma quase sagrada, que eu entrei em sua casa.
O seu quarto estava mesmo ao pé da porta da entrada. As paredes estavam por pintar, escuras da humidade e da nicotina. Em frente da porta, encostada à parede, estava a cama de corpo único, que ele me apontou.
– Eis o túmulo – disse.
Falámos durante duas ou três horas, sentados na pedra daquela tumba. Fomos interrompidos apenas uma vez, por uma senhora pequenina, de olhos verdes, voz rouca de fumadora, que o veio chamar para tomar os remédios. Era a Henriete, a irmã com quem vivia. Retomámos logo de seguida com o mesmo entusiasmo. Cesariny falou-me como encontrou em 1950 em Amarante Pascoaes, como o começou a ler, como frequentou a sua casa, já no tempo do sobrinho João e da Maria Amélia, como o deu a conhecer a António Maria Lisboa, a Ernesto Sampaio, a Cruzeiro Seixas. Ligava Pascoaes ao surrealismo vivo e eterno, sem escola nem arte, ao mais espontâneo e vivo da imaginação humana.
No fim, fez questão de me mostrar no corredor a estante onde tinha os livros de Pascoaes, emprestando-me ao mesmo tempo um livro de Breton que lhe agradava especialmente, Entretiens (1952) e onde segundo ele o surrealismo e o pensamento libertário se davam as mãos com rara felicidade. No meio, por acaso, soltou-se da prateleira um livro de René Guénon, que tinha uma dedicatória do António Barahona.
– O António quer ‘ultrapassar’ o Breton, mas o Breton não se pode ultrapassar, porque também não pertence ao Tempo ­– exclamou ele.
Depois disso encontrámo-nos diversas vezes, uma delas, em Dezembro de 2002, na casa de Pascoaes, em Amarante. Tomámos o pequeno-almoço juntos na casa do poeta, servido pela sobrinha Maria Amélia, e depois descemos ao pequeno cemitério de Gatão, onde Pascoaes repousa numa campa rasa, com uma simples lousa, onde se inscrevem dois versos que ele propositadamente escreveu para ali figurarem (cito de memória): de tanta luz apagado/ de tanta palavra mudo.
Em todos esses encontros tive sempre da sua parte as mesmas manifestações de amabilidade e graça. Gostava de se expor, de mostrar tudo preto no branco, sem censuras, aberto e directo, mas era de uma correcção quase inexcedível. Recorria menos à palavra grossa e provocadora que ao sonho da catarse purificadora, raramente deslizando para o insulto ou para o desabafo crítico. Tudo nele era inocente e infantil.
A última vez que o vi foi a 3 de Maio de 2004 na Cinemateca, na apresentação do filme de Miguel Gonçalves Mendes. Do filme, recordo a cabeça do Mário acompanhada por um rugido de leão; do Mário, lembro a simplicidade atrabiliária com que se voltou para a sala, olhos fechados, quando as luzes se acenderam, dizendo com um encolher de ombros para um público de jovens e piercings:
– O poema que se ouve não é mau.
Riram os jovens. Pediram-lhe mais palavras e ele exclamou melancólico, entre Bénard da Costa e Miguel Gonçalves:
– Tudo isto é lindo, com todos a baterem palmas, a quererem que eu fale, mas o problema é que quando isto acabar vou ter de regressar sozinho a casa. E vocês nem sabem como aquilo para a Palhavã é frio e feio.
Era assim o Mário, mais nobre que feroz, mais simples que maldoso, mais santo que sibarita.
Partiu agora, de vez, e sem companhia, a 26 de Novembro de 2006. Tinha oitenta e três anos e deixa atrás de si um vazio imenso, porque foi dos últimos a escrever e a pintar com a autenticidade do espírito. Do seu tempo e da sua têmpera restam Cruzeiro Seixas e com certeza Luiz Pacheco, o terrível; depois não se percebe muito bem o que fica nem o que interessa.
Tudo o que me resta é abrir o Livro dos Mortos Tibetanos no capítulo décimo segundo, onde estão as palavras por aqueles que partiram. Leio-as e paro no momento em que se pede protecção para aquele que morreu. E faço também um desejo: que o terror da morte, a que o Mário era tão sensível, se possa transformar na clarividência sublime da vida, essa que ele sempre procurou através das palavras, das cores e dos gestos maravilhosos. Com eles esconjurou a miséria mesquinha deste tempo de plástico, dando-nos uma lição sincera de poesia e liberdade.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Evocação

Excerto de uma carta de João Rêgo († 4.7.2007) a um amigo

“Mentalmente mantenho-me activo escrevendo, escutando e tentando interpretar sentimentos e sofrimentos. Percebi este verão o alcance de alguns avisos de Sampaio Bruno, nas últimas páginas de A Ideia de Deus:

Se o mundo não existe para que o homem o saiba, também não existe para que o homem o goze, filosofar, filosofar sempre é que é o destino humano…

Percebi que, enquanto viver, não estou autorizado a descansar. Deter-se a alma nalguma satisfação ou nalguma felicidade é abrir a porta a monstros. Até aqui não acreditava que quanto mais luminosa a ideia entrevista tanto maior o perigo da queda, quando o movimento desaparece. A vida do espírito é deveras só movimento, movimento exigente. Quem esquece isto corre sérios riscos de ficar paralisado por muito tempo. Creio que é esta também uma das mensagens de Álvaro Ribeiro no prefácio de A Literatura de José Régio. Não tinha compreendido até agora por que motivo Álvaro se lamenta da insistência do anjo…”

João Rêgo

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Pensando à bolina (2)

O desenho que a vida faz
Pedro Sinde

A nossa vida é um acto contínuo; mas só vista de longe, de um ponto remoto a que dificilmente conseguimos chegar, precisamente porque se trata da nossa vida.

Quando olhamos a vida de uma pessoa no passado ou lemos a sua biografia, podemos ver esse acto único, contínuo. Mas, em relação à nossa, isso é mais difícil, porque estamos tão perto dela que nos aparece como um pontilhado de um quadro impressionista: se visto de perto, não se distingue a imagem lá figurada, mas apenas um conjunto de traços fugazes.
Para percebermos o sentido da nossa vida, para vermos a figura que cada gesto nosso vai desenhando subtil ou grosseiramente na tela, temos de encontrar esse ponto de distanciamento (nem longe em demasia, nem excessivamente perto) que nos permita, vendo o que já está desenhado, antecipar a direcção do traço presente. E, no fim, um anjo ou um demónio será a figura final.
Estamos sempre a tempo de mudar a figura toda, porque cada gesto do presente actua sobre todo o desenho do passado. Assim, um bandido transforma a sua vida passada, que mostrava a figura disforme de um monstro, numa figura belíssima de anjo, no momento exacto em que, de uma vez por todas, se arrepende.

sábado, 7 de julho de 2007

Bellum sine bello

Carta a António Cândido Franco

Pedro Sinde

Meu caro Cândido Franco

Escrevo-te a propósito de uma carta que dirigiste ao António Telmo; não cometo nenhuma inconfidência pois tu mesmo tornaste a carta pública nos Teoremas de Filosofia (n.º 8). Assim, venho eu mesmo tornar pública esta carta que te dirijo.

Não se trata de uma resposta à tua carta, só o António Telmo o poderia fazer e optou discretamente por deixar cair ali o assunto, tendo até inserido o seu texto (A Cabra, Teoremas de Filosofia, n.º 7), que originou a polémica, se assim me posso expressar, juntamente com a tua carta no seu último livro (Congeminações de um neopitagórico). Discretamente, nesse livro, creio ter dado uma resposta à tua carta, ao inserir debaixo do mesmo capítulo (Bellum sine bello), para lá dos textos referidos, dele e teu, uma entrevista à revista brasileira Encontro, brilhantemente conduzida pelo poeta Ângelo Monteiro (esta entrevista foi publicada nos Teoremas, n.º 3). Lá chegarei.

Esta carta não procura responder à tua, verás que mais do que responder, ela procura perguntar. Estamos já em 2007 e a tua carta é de 2003, poderás por aqui verificar a natureza do meu intuito ao escrever-te agora, quatro anos passados.

Para quem não conheça o texto de António Telmo e a tua carta, creio que pode ser útil dizer que a polémica se centra em três pontos que tu mesmo referes sintetizando; tudo tendo por origem um álbum editado pela Assírio em que se reúnem desenhos de Pascoaes:

1. De que modo se podem interpretar os desenhos de Pascoaes?
2. O que é o surrealismo?
3. Que relação existe entre Mário Cesariny e a filosofia portuguesa?

Estes três pontos ligam-se subtilmente numa só questão: que relação existe entre o surrealismo em Portugal e a filosofia portuguesa?

1. Sobre a interpretação dos desenhos de Pascoaes

Pascoaes fez a sua obra como homem da palavra e não pela imagem. Por esta razão não há que dar demasiada importância a um aspecto que ele nunca quis tornar público. Em todo o caso, se queremos conhecer bem o seu pensamento, podemos também contar com esse aspecto. Aquilo que António Telmo procurou fazer foi mostrar que os desenhos “nocturnos” de Pascoaes devem ser vistos à luz, quer dizer, devem ser postos ao lado da sua obra luminosa; deixados sozinhos poderiam ser tomados erradamente como um aspecto tenebroso. É o mesmo, aliás, que acontece com o seu livro Duplo Passeio, é um passeio por dois lados do ser, que não são a luz e as trevas, mas o dia e a noite, o que é muito diferente; poderíamos dizer ainda que se trata da ausência e da presença, se quisermos estabelecer esta relação não já com duas forças cósmicas, mas com duas forças antropológicas ou anímicas. A noite não é a treva; podemos dizer que se estabelece entre a noite e o dia a mesma relação que entre o silêncio e o verbo; já a treva seria como que a palavra às avessas, quer dizer, o ruído.

2a. Surrealismo e a sua etimologia

A argumentação que usas para refutar a interpretação do António Telmo a propósito do termo “surrealismo” impressionou-me. Procuraste levar tudo para o campo da etimologia, como se o professor de francês que foi António Telmo pudesse ignorar a diferença entre sous e sur. Não, não se trata de etimologia; trata-se da eficácia da palavra. Quando digo “surrealismo”, a ideia que se me impõe, malgré moi, é a de algo que está por baixo do real. Se os fonemas são na sua forma a expressão do significado, da ideia, então aquele “su” aparece-nos necessariamente como o que está por baixo, o que subjaz. Não serve argumentar que essa não é a etimologia e que esta é “sobre” (sur), o que importa é o modo como é apreendida a palavra; e a isto não escapa mesmo o erudito, pois também a ele, no uso corrente, se impõe essa ideia necessariamente. A única forma de escapar seria a de adoptar sempre a forma sobre-realismo ou supra-realismo. Aí sim, claramente, não poderia haver confusão. Mas como nestas coisas da língua nunca há coincidências, é necessário tirar consequências da escolha da tradução de surréalisme por surrealismo. É o que faz o António Telmo.

De resto, mesmo o francês não está imune a esta confusão, pois, oralmente aquele “su”é ouvido como “sous” e se é ouvido, é interpretado. Será um acaso infeliz, dir-me-ás, que no francês sejam tão semelhantes o sous e o sur. Bom, mas que culpa temos nós que os franceses confundam o que está em cima com o que está em baixo? O génio da sua língua lá saberá o motivo por que deixou assim essa possibilidade, talvez fecunda, de confusão, talvez até haja virtualidades desconhecidas nisto que nos aparece como uma falta de clareza, sobretudo num povo que tão cartesianamente crê saber distinguir o preto do branco. Será. Certo é que a palavra ouvida soa sempre como su-réalisme, porque o r de sur se funde com o r de réalisme, deixando suspenso e destacado o su, que em português soa a sub e em francês a sous. Certo, certo, é que o génio da língua portuguesa não se presta a confusões e dá-nos para o sous o termo sob ou sub e para o sur o termo sobre. O português muito bem distingue entre o que está em cima e o que está em baixo.

2b. Surrealismo e abjeccionismo

Não sei se a distinção teórica entre uma e outra correntes será muito eficaz quando se pensa no comportamento. Mesmo que deixemos, como devemos deixar, o puritanismo de lado, algumas das descrições que o próprio Cesariny faz do seu comportamento, parecem situá-lo mais do lado dos abjeccionistas do que do lado dos outros, dos surrealistas propriamente ditos.

A propósito da descida aos infernos, que a ninguém desejo, poderíamos depois conversar demoradamente. É difícil de pensar no que pode estar significado nessa expressão; todavia, não creio que isso deva ser entendido ou confundido com o “abjecto” e isso parece estar significado nesta distinção: os abjeccionistas são os que ficam lá, no abjecto; os surrealistas são os que descem lá, mas depois ascendem.

A poesia clássica que se refere a este tema não deixa qualquer margem para que o concebamos por esse modo. Quer dizer, não se trata de experimentar o abjecto nem o mal. O inferno só o é quando nasce na mitologia cristã enquanto tal; antes disso é o reino dos espectros, dos mortos. Também aqui não se deveria confundir a noite com a treva.

A este propósito recorres à Arte Poética do António Telmo. Há aqui, porém, uma questão essencial que não permite esse recurso. Não vou entrar sequer no plano da argumentação, mas apenas lembrar-te que é o próprio António Telmo que, naquela entrevista, já referida, republicada nos Teoremas (n.º 3), afirma o seguinte: “A minha Arte Poética vale pelo último capítulo que foi escrito para a sua segunda edição”; concordaremos os dois que o juízo é severo demais, no entanto, é o próprio autor quem o faz e referindo-se explicitamente à doutrina da “descida aos infernos” que ali pôs! Esclarecendo o seu pensamento actual, explica que a descida aos infernos é, na realidade, a descida ao mundo das origens: é Eneias que consulta o pai, Ulisses que fala com a mãe, Fausto que desce até ao lugar onde estão as mães, Jesus que de lá retira os patriarcas. Com isto, António Telmo situa a reflexão sobre a descida num plano completamente diferente do surrealismo.

A certa altura na tua carta interrogas o António Telmo, a propósito da descida aos infernos, nestes termos: “Disto mesmo nos fala o seu livro de estreia, Arte Poética. Lembra-se, António Telmo?” E continuas: “Se bem compreendi a sua arte poética, não pode haver maturidade humana vital sem a experiência perigosa que os heróis clássicos faziam do mundo inferior (…).” Parecendo responder, avant-la-lettre, à tua carta, a resposta surge, pronta, na entrevista com dois anos de antecedência: “Mas alguma vez eu disse que não se pudesse ser grande poeta sem a experiência da descida aos infernos? Valha-nos Deus!”

Deduzo, naturalmente, que não leste a entrevista, por qualquer razão circunstancial, se tivesses tido oportunidade de a ler, estou certo, terias evitado aquele momento, tão entristecedor, em que recomendas a leitura dos livros de Breton ao António Telmo.

3. A relação entre a filosofia portuguesa e o surrealismo

Uma coisa deveras me tem intrigado no que dizes sobre a relação entre a filosofia portuguesa e o surrealismo em Portugal: colocas-te numa posição de mediador, sentindo que aqueles dois movimentos, desencontrados no tempo, incapazes de se compreender mutuamente, por esta ou aquela razão, se deviam encontrar agora. Não vou procurar, porque não é o lugar e porque não tenho competência para tal, ver até que ponto um e outro são compatíveis. Uma diferença, porém, se me apresenta logo à partida. A filosofia portuguesa não é um movimento, ao contrário do surrealismo que, esse sim, foi um movimento. Vejo-te aqui como um D. Pedro a fazer rainha, depois de morta, o surrealismo. É um belo gesto, no melhor do D. Quixote; só com quixotes isto hoje pode ir! Todos os da filosofia portuguesa são, contigo, quixotes!

Não podemos, todavia, situar o surrealismo no mesmo plano da filosofia portuguesa. A filosofia portuguesa, tal como a viu Álvaro Ribeiro, existe latente desde a origem da pátria e talvez mesmo antes; foi-se explicitando em monumentos arquitectónicos, literários, na língua, na história; e é por isso que enquanto houver um português haverá filosofia portuguesa, latente mas presente. Se hoje vivemos um período de ocultação, isso não será assim sempre. O trabalho está quase todo por fazer e é preciso continuar a estudar Portugal, olhar para trás para com mais nitidez percebermos a direcção do caminho que temos pela frente. É dramático que, sendo portugueses, nos ignoremos a tal ponto que necessitemos de uma arte de ser português!

É por isso que a filosofia portuguesa não pode morrer, ela não é um movimento, ela é a causa do nosso movimento.

Ela estará latente, sim, mas só até àquela altura em que a filosofia for já plenamente operativa, quando sair dos livros que agora são a sua necessária arca de Noé e que a protegem até ao fim deste dilúvio que por nós, avassalador, passa (até quando?).

A pergunta que gostava de te fazer, para encerrar esta carta, que já vai longa, é a seguinte: uma vez que te colocas como intermediário entre a filosofia portuguesa e o surrealismo, movimento francês presente em Portugal, porque é que te incomodou tanto o texto de António Telmo sobre Cesariny e o surrealismo e parece ter incomodado tão pouco o ataque injusto desferido por Cesariny à filosofia portuguesa? É que vi-te reagir prontamente ao primeiro e nunca vi – ponho a hipótese de desconhecer algum texto teu… – qualquer reacção tua ao segundo. Ocorre-me uma imagem: o Quixote verá não só gigantes nos moinhos, mas também moinhos nos gigantes? Outra imagem poderia ser esta: uma ponte liga duas margens, mas em ambos os sentidos.

São estas as perplexidades que tenho sentido e que não queria, por lealdade à nossa amizade, deixar de te as expor. Se o faço assim, em público, é porque sigo aquele lema de Sampaio Bruno que diz: “Guerra às ideias, paz aos homens”, seguro de que entre nós a paz permanecerá no abraço amigo que do norte ao sul te envio,

Pedro Sinde

Pensando à bolina (1)

A um homem simples de Santo Tirso que todos os dias ia ao templo

Pedro Sinde

Todos os dias Deus chama por ti. E sempre à mesma hora tu estás disponível, livre. Dizes, então, que “sim, Amen”.

Aquiescente, livre e obediente, todos os dias àquela hora, cabeça baixa, passo lento mas certo, respondes ao teu chamamento.

Pobre diabo, assim exclama quem te vê de longe passar; mas na verdade és um pobre de Cristo.

Vejo-te agora, de chapéu e gabardina, ambos surrados, ambos cinzentos, quase invisíveis de puídos. Levas a cabeça baixa, como se olhando pudesses ofender alguém. E lá vais, livre e obediente, nunca faltando ao teu compromisso.

Como sabes tu que Deus te chama todos os dias à mesma hora? Nunca o ouviste. Nunca leste nenhum livro – nem sabes ler letras. E, no entanto, todos os dias dizes que “sim, Amen”.

Em que corda profunda Deus te toca? Com que misteriosa ressonância respondes tu no alaúde da tua alma ao acorde que Deus tange em ti?

Ó meu Deus, o que os teus olhos viram! O que sofreste! A fome por que passaste… Não houve um dia, Verão ou Inverno, que a tua pele não estalasse mais um pouco ou mais um pouco mirrasse. Os teus onze irmãos morreram já, uns com pneumonia, outros à fome ou ao frio.

Carregaste toda a tua vida como um fardo pesado. E, ainda assim, que corda profunda Deus toca em ti? Com que misteriosa ressonância respondes tu no alaúde da tua alma a esse acorde? O que viu e sabe a tua alma de Deus para todos os dias à mesma hora, do mesmo modo, livre e obediente, responder? Que abismos insondáveis guardas no regaço da tua alma?

Não precisas de argumentos, sabes mais do que os doutores da teologia.

Ah! Que misteriosa íntima união se dá entre ti e Deus… de tal modo que ignoras que ele, o Senhor do Universo, Sonhador deste nosso mundo, Chama Viva do Pensamento, Criador dos nossos destinos, o Rei, o Único, te chama; e mesmo assim, sem saberes sabendo, respondes que “sim, Amen”.

Santo Tirso, 21 de Dezembro de 1998

Escaparate (1)

Congeminações de um neo-pitagórico, de António Telmo
Al-Barzakh, 2006

Alexandre Teixeira Mendes

Sob o signo de Pitágoras

Inaugurando as edições Al-Barzakh , apareceu agora, numa edição limitada de 50 exemplares, o livro de António Telmo “Congeminações de um neopitagórico”. Fica-se com a impressão, ao ler estas páginas, de que a abordagem dos diversos textos exige à primeira vista o articular da “prima philosophia” (assimilável a uma hermenêutica) para se apreender a instância da letra – os traços diferenciais e constituintes duma obra - onde se interpela sobretudo a razão poética, razão criadora. Na realidade, os “scripta” deste autor exigem uma atenção à linguagem audaciosa - enquanto expressão “iniciática” - e o assegurar do seu itinerário para cobrir o domínio que desejamos falar.

Da patriosofia

A relevância deste autor da “sophia”- a filo-sofia - que re-pensou e interpretou o “logos” e “ontos” português - é geralmente lembrada em termos de sua capacidade de oferecer uma leitura da “História Secreta de Portugal” (Editorial Vega, Lisboa, 1977), articulando “Razão” e “Mistério”. O problema que subjaz a esta discussão - a nossa “autognose” - é antigo, e seu tema foi repetido em diversas variações sobretudo pela doutrinação periodística do “57” (na essencialização do movimento da “Renascença Portuguesa”). Tratou-se aí de um grupo estabelecido e definido - o “Movimento da Cultura Portuguesa” - que re-colocou em discussão, nos anos 50-60, a problemática dos fundamentos ônticos e lógicos da Filosofia Portuguesa. Entendida assim a questão surge de uma compreensão da “lógica dos arcanos” e, portanto, da “patriosofia” (presente nomeadamente na obra de António Quadros ou Dalila Pereira da Costa). Já houve quem apresentasse António Telmo como “parte duma raríssima linhagem de poetas e pensadores obscuros que têm procurado desenvolver uma tradição órfica primordial, emque o canto e a palavra aparecem como a salvação do mundo” (António Cândido Franco, “O Filho de Orfeu (Gramática Secreta da Língua Portuguesa)” in António Telmo e as Gerações Novas, p. 77). Os seus escritos e a sua obra está in via.

Os mecanismos da iniciação

A filosofia, segundo António Telmo, exige iniciação. Pois bem! Não há interpretação sem iniciação. O termo “iniciação”- que se presta, por vezes, a equívocos - , deriva do latim initium, significa “começo” e também “entrada”. À luz destas considerações compreender-se-á melhor o termo “irmão”, adelphos, que é utilizado, mesmo em Elêusis, para os que se iniciam juntos. A iniciação - no itinerário do pensamento de António Telmo – começou assim, em definitivo, a partir do magistério de Álvaro Ribeiro e José Marinho (revelou-se de modo luminoso na sua aventura no Brasil com Agostinho da Silva). O nosso autor - conhecido pela sua formação clássica e filológica - é hoje o exemplo típico da “fusão de horizontes” que extrai seu próprio poder da tradição cultural e esotérica de Portugal - e cuja base filosófica ou temática se move, em sentido estrito, no âmbito heterodoxo, inicialmente numa amálgama da tradição unânime, que se torna, num segundo estágio, aproximação ao substracto metafísico do hermetismo (tendo em conta o longo processo conhecido genericamente como “iniciação”). Nos seus primeiros escritos e posteriores justifica-se essa tradição portuguesa - de um logos mais poético-profético que noético - que Álvaro Ribeiro identificou com a Santa Kabbalah.

Kabbalah, sufismo e joaquimismo

António Telmo situa-se, na realidade, em face de três enfoques: a kabbalah, o sufismo e o cristianismo dos espirituais da Idade Média (joaquimismo). Repetidas vezes se assinalou a sabedoria mística - esotérica e secreta - expressa através dos tempos. É mais que sabido que o cabalista ambiciona captar o que anda escondido: nesse horizonte das visões e das revelações tende à purificação pessoal. Aliás, o mundo do tempo surge, aos olhos do cabalista, como exílio. Convém não esquecer que Israel está em exílio, a Criação de Deus está em exílio, cada alma, vestida de um corpo terrestre que o separa do Um, está em exílio. Requer-se uma via de iniciação e de sabedoria. É suficiente que, de uma ou outra maneira, busquemos a re-integração (o retorno à origem)? A kabbalah - enquanto tradição oculta ou esotérica dos Hebreus - seguiu seu curso porque chegamos a levar em conta o grau em que os processos psicológicos estão presos pelos temas da ambiguidade da linguagem criadora de mundos. Importa porém tentar aqui uma aproximação ao sufismo: a espiritualidade ou mística da religião do Islão subversiva para o legalismo e o literalismo. De facto, trata-se de um termo que foi relacionado à palavra grega sophia que significa sabedoria, e à palavra árabe saf, que significa pureza, sendo que esta última também se refere às vestes puras, de lã, usadas por alguns sufis. Para o sufismo o protótipo do verdadeiro crente é o viandante. Os sufis são gente no caminho e o sufismo é declaração de amor. Daí também ter tentado a seu modo a activação plena de Deus no homem. Caracterizar o sufismo como realização da unidade de Deus leva, naturalmente, a falar da substancial unidade de todas as religiões e da confiança no futuro da humanidade. É preciso ressaltar que os seus ensinamentos são antiquíssimos e referem-se ao despertar (na circunvizinhança da ideia de conversão que tem por modelo o texto do Qu’ran). O fenómeno a que chamamos dervixes, ou seja, monges viandantes - literalmente aqueles que rezam (ou procuram) na soleira (entre os mundos) - é uma das manifestações da irmandade que provém de Rûmî. Por sua vez, o evangelismo apregoado pelo abade cirterciense Joaquim de Fiori, no século XII, como se sabe, foi baptizado como a “Nova Idade do Espírito”. A sua síntese “dialéctica” e “precursora” de Hegel toma contacto com a realização ou cumprimento de palavras e promessas: o “pléroma” do Novo Testamento. Joaquim de Fiori, não obstante a sua filiação à tradição patrística e agostiniana, aproxima-se dos dissidentes e hereges ao serviço do dinamismo do Espírito. Os argumentos do joaquimismo e do “Evangelho Eterno” – para justificar novas “idades” ou novas “eras” – foram retomados contemporaneamente por Agostinho da Silva.

“Versos Dourados”

Impõe-se, portanto, uma noção preliminar para explicar o título deste livro de António Telmo: a doutrina pitagórica e a tradição numerológica-hermética. Pitágoras mais não fez que dar forma ao dogma da perfeição da esfera que atravessou os séculos. Lembra-nos, em mais de um pormenor, que a esfera inclui em si todas as figuras possíveis. A sua teorização não abrangeu em vão a astronomia explicativa e geométrica em um contexto particular, historicamente circunscrito. O entrelaçamento de duas formas de espírito, que geralmente se excluem -, o espírito científico e o espírito místico -, passam por este pensador natural de Samos (527 antes da era comum). Pitágoras não era somente o taumaturgo, mas o mistagogo sagaz onde, por assim dizer, ganha relevo o génio matemático cujos raros extractos e fragmentos chegaram até nós. Mas entre todas as fontes de Pitágoras, merecem menção especial os “Versos Dourados” ou “Versos de Ouro” (de que conhecemos a versão de José Blanc de Portugal). Parece-nos útil assinalar, porém, o precursor da ciência dos números e figuras que - na opinião avalizada de Proclo – transformou a geometria em um ensinamento liberal. Poderíamos ainda fazer alusão a os mysteria, adentro dos termos-chave do conhecimento teórico como via da salvação (soteria). Como já observamos, é-nos completamente impossível apresentar na sua totalidade os aspectos da religião astral do mundo antigo - a visão da imortalidade celeste das almas - e do pitagorismo. Vistas as coisas o mais rigorosamente possível, o pitagorismo, segundo Louis Rougier, forneceu um quadro maravilhosamente apropriado às religiões de mistério e às economias da salvação que desbordaram do Oriente sobre o mundo mediterrâneo depois da conquista de Alexandre (La Religion Astrale dês Pythagoriciens). O pitagorismo moderno tem pelo menos uma coisa boa: suscitar a re-descoberta da chamada geometria esférica. Trata-se da filiação a uma tradição que nos remete a um corpus metafísico próximo do antigo “saber imutável”.

Da tradição hermética

A “Ars Magna”, também chamada “Grande Obra”, é o objectivo de todo “filho de Hermes”. Ora, a arte de interpretação remete-nos à figura de Hermes, mensageiro divino, o qual cabe a tarefa de traduzir a vontade dos deuses para a língua humana. Agora se torna, talvez, mais claro qual é a herança em que se inscreve António Telmo - descendente em linha directa dos “Cabalistas da Noite” - e cujo reportório, por exemplo, nos remete ao Sefer HaZohar, que se traduz como “O Livro do Esplendor”. Torna-se crucial distinguir aqui a escritura e a arquitectura de uma obra a partir de um centro: a “Escola Portuense”. Isto me parece ainda mais importante hoje, quando se torna imperioso acentuar – com vista a ulteriores reflexões – que nela se privilegiavam duas distinções: a distinção entre o ensino escrito e o ensino oral, por um lado; a distinção entre escritos exotéricos e escritos esotéricos, de outro. O autor de "Arte Poética”, superando e reassumindo o espírito visionário e messiânico de Bruno, tem vindo a re-assumir, por assim dizer, o pensar de Platão e Aristóteles. Estamos aqui, na realidade, em face de uma reflexão que encontra o seu significado no facto de assimilar as três tradições abrahámicas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, também chamadas de “tradições do Livro”. Este conjunto de ensaios vem esclarecer os termos dos problemas referentes a um questionamento (para usar a terminologia de Henry Corbin) de “espaços visionários e “geografias imaginais”. Não discutiremos aqui as interpretações apresentadas, o que nos afastaria do nosso propósito; contentar-nos-emos em ressaltar a admirável “Carta ao Pedro Sinde um dos doze”, um dos clássicos “Diálogos de Thomé e Nathan” e as anotações “Em torno d`Os Lusíadas e de Camões” ou “À volta de Platão” (Crátilo ou o Mistério da Palavra”) que alcançam a sua originalidade.

Originalmente publicado nos blogues Ladina e Incomunidade.

A sombra de Eurídice (4)

Nevoeiro

Fernando Pessoa

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quer.
Ninguem conhece que alma tem.
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ancia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!

Valete, Fratres.
[10-12-1928]

Provas de contacto (3)

O Deus de Paulo

Teixeira de Pascoaes


O mundo foi da Poesia, nos primeiros séculos da nossa era. Repetir-se-á o milagre? Voltará o deus dos poetas contra os sábios, que só acreditam na matéria, e com ela fabricam explosivos, gases asfixiantes, máquinas pavorosas? Nesta orgia industrial moderna, paródia em ferro e vapor, da orgia pagã, o homem está morto ou isolado do seu espírito. Existe, mas não vive. Existe a duzentos quilómetros à hora, mas com a vida parada, dentro dele. Vida inerte numa existência delirante. Seduzido pelo ruído e movimento, as duas faces desta civilização americana ou neo-neroniana, integrou-se num sistema mecânico industrial, e é simplesmente uma engrenagem. O ideal da ciência é a morte absoluta; a morte da alma e a do corpo: ateísmo e milinite. O homem, desviado do seu destino, que é tornar-se consciência universal, perante o Criador, mente à sua própria natureza e perde a razão de ser. Daí, a paralisia moral em que ele jaz e a velocidade que o desvaira, e leva para o túmulo. Pretende eliminar o espaço e o tempo, converter-se numa entidade fictícia, simples imagem abstracta, perpendicular a um solo vertiginoso. Pretende evaporar-se. Eis a grande sensação moderna, depois do sentimento antigo. Mas confiemos no espírito humano.

Esta civilização americana depende de materiais esgotáveis ou em quantidade limitada. A fábrica, esse templo moderno, há-de ser destruída, como o templo de Artemisa, em Éfeso, e o de Vénus, em Pafos. Templo quer dizer túmulo, casa dos mortos, que os mortos foram os primeiros deuses. Foram eles que dirigiram, para além do mundo, a atenção dos vivos. Destruída a fábrica pagã, teremos a igreja de Cristo, a confraria dos irmãos, o convívio universal e amoroso.

Confiemos no Deus de Paulo.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

A sombra de Eurídice (3)

um soneto de Luís de Camões

No mundo, poucos anos e cansados
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me tão cedo a luz do dia escura
que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados,
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, não quer Ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corrupto,
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Abássia fera e avara,
tão longe da ditosa pátria minha!

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Provas de contacto (2)

Deus

Sampaio (Bruno)

No princípio era a Perfeição, o espírito homogéneo e puro. No segundo momento, mercê do efeito dum mistério, temos o espírito diminuído e a seu par a diferença que se tornou heterogénea, isto é o mundo. No terceiro momento, reintegrar-se-á o espírito puro, pela absorção final de todo o heterogéneo. Assim, três são os instantes supremos do crescimento. Um: é o espírito homogéneo e puro, que foi e há-de voltar a ser. Eis o ponto de partida e eis o ponto de chegada. Outro: é o espírito puro mas diminuído actualmente, pelo destaque separativo do Universo. Enfim, o outro ainda: é esse Universo, que aspira a regressar ao homogéneo inicial.

sábado, 30 de junho de 2007

Um novo livro de Paulo Borges

O mais recente livro de Paulo Borges intitula-se FOLIA – MISTÉRIO DE UMA NOITE DE PENTECOSTES, e será lançado na próxima quarta-feira, dia 4 de Julho, pelas 21 horas, na Quinta da Regaleira. A apresentação estará a cargo do escritor Miguel Real e do músico Pedro Aires Magalhães. Pelas 22h00, os presentes serão convidados a assistir à ante-estreia da peça FOLIA pelo «Teatro TapaFuros», com encenação de Rui Mário. A peça estará em cena nos jardins da Quinta da Regaleira de 5 de Julho a 8 de Setembro, quintas, sextas e sábados às 22h e domingos às 20h.

A sombra de Eurídice (2)

Ao triste estado

Frei Agostinho da Cruz

Passa por este vale a primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera.

Abranda o mar, menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente decem,
Os dias mais fermosos amanhecem,
Não para mim, que sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado,
A mágoa choro dum, doutro a lembrança,
Sem ter já que esperar nem perder.

Mal se pode mudar tão triste estado,
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.